Notícias

Equipe para tratar fumantes

As últimas pesquisas sobre tabagismo realizadas no Brasil revelam alguns dados animadores. Um desses estudos, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstra que o número de ex-fumantes no País já ultrapassa o de fumantes (veja na matéria seguinte). Mas a luta contra o cigarro continua difícil para quem é viciado. Não são raros os casos de quem tenta parar, por conta própria, e logo tem uma recaída. Medicamentos às vezes são eficazes, mas, sozinhos, nem sempre representam a garantia de um tratamento de sucesso. Cientes desses dados, profissionais de saúde de áreas distintas começaram a pensar numa forma de tratamento que pudesse ajudar os tabagistas de maneira mais eficaz: dessa forma surgiu o tratamento multidisciplinar, já usado, com sucesso em casos de pessoas com problemas como alcoolismo e dependência de entorpecentes.

Cardiologistas, pneumologistas, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas, professores de educação física, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais se unem e passam a elaborar estratégias que colaboram para aumentar as estatísticas favoráveis em relação ao combate ao tabagismo. O cabeleireiro Vandilson Luiz da Silva, 42, é um dos pacientes que comemoram a vitória na batalha contra o cigarro depois de ter se submetido a um tratamento multidisciplinar. Ele começou a fumar muito novo, aos 16 anos. Tentou parar algumas vezes, sem sucesso. Até que um amigo, ex-alcoólatra, que já havia experimentado o tratamento multidisciplinar, o encaminhou a uma unidade de saúde que também trata de fumantes: um Centro de Atenção Psicossocial ligado à Prefeitura do Recife (Caps). Lá, uma equipe formada por psicóloga, enfermeira e nutricionista atenderam Vandilson e, depois de um tratamento de 11 meses, ele se declara livre do cigarro.

“Aprendi a tomar água gelada ou chupar laranja, quando desse vontade de fumar. E funciona mesmo”, impressiona-se. “No Caps os profissionais fazem reuniões com a gente (os fumantes) e mostram sempre os males que o cigarro pode provocar. Existem também os atendimentos individuais, onde conversamos com os médicos e psicólogos e pontamos as nossas dificuldades”, conta o cabeleireiro.

Uma das profissionais que ajudou seu Vandilson a largar o vício, a posicóloga Ivana Alencar, coordenadora clínica do Capes Campo Grande, considera o tabagismo uma das dependências químicas mais difíceis de serem tratadas. Por esse motivo, a equipe acredita na eficácia da abordagem cognitivo-comportamental. “Trabalhamos em cima de metas e estratégias”, diz, explicando que são utilizadas estratégias motivacionais e de prevenção de recaídas. “Todo paciente que chega submete-se a entrevistas antes de iniciar o tratamento junto com um grupo. Perguntamos quantos cigarros fuma por dia, quais os horários e, a partir daí, começamos a perceber a melhor maneira de motivar cada um”, diz.
Ivana ressalta que muitos pacientes tentam, sem sucesso, vencer o vício através de ratamento medicamentoso. “Esse tipo de tratamento, sozinho, não é tão eficaz. É importante participar, por exemplo, de reuniões entre vários fumantes que estão dispostos deixar o cigarro. Isso enriquece muito a proposta terapêutica. E o projeto de tratamento envolve a intervenção de diversos profissionais”, salienta.

O coordenador do controle de tabagismo e outros fatores de risco do câncer da Prefeitura do Recife, Marcos Tulio Caldas, explica que existem seis Capes na capital pernambucana que tratam o tabagismo. Nesses centros existem, no total, dez grupos de fumantes dispostos a largar o vício. A política de tratamento, a terapia comportamental-cognitiva, foi estabelecida com base em trabalhos da Organização Mundial de Saúde, que no Brasil é representada pelo Ministério da Saúde e pelo Inca. O tratamento é realizado em, no mínimo, quatro sessões, que podem se estender, de acordo com a necessidade de cada paciente. Entre os profissionais envolvidos estão clínicos gerais, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e psiquiatras. Todos os profissionais que trabalham com tabagismo passam por capacitação específica que segue programa do Inca.
Para o cardiologista Sílvio Paffer, ainda há, porém, um limitante para o tratamento multidisciplinar: o alto custo. As drogas são caras e o acompanhamento dos profissionais também. “Além de exigir um investimento entre R$ 600 e R$ 700 em medicamentos para um tratamento de seis meses, o tratamento multidisciplinar requer o acompanhamento, pelo menos, de cardiologista, pneumologista, psiquiatra e psicólogo”, enumera. O médico salienta, porém, que boa parte da eficácia do tratamento está na disposição do paciente ao decidir deixar de fumar. “E qualquer profissional de saúde, de qualquer área, quando sabe que o paciente é fumante, pode gastar um pouco do tempo da sua consulta para mostrar os males causados pelo cigarro e as possibilidades de tratamento”, diz.

O pneumologista Murilo Guimarães detalha a importância da atuação de alguns profissionais. “Além do médico, é importante o acompanhamento de psicólogos, professores de educação física e nutricionistas. A fase da abstinência é uma das mais complicadas. Psicólogos e enfermeiros ajudam muito nessa hora. Nutricionistas dão dicas importantes porque existem pacientes que querem substituir o cigarro por doces. E atividade física também pode ser uma boa ocupação para ajudar a vencer o vício”, ensina. Guimarães cita, inclusive, um encontro de pneumologistas que houve em São Paulo, no início deste ano, onde se discutiu sobre a ideia de incentivar médicos de áreas diversas a investir, pelo menos durante dois minutos de suas consultas, falando sobre tabagismo para pacientes.

Fonte: Jornal do Commercio