Nesta semana, o HCP recebeu a visita da pesquisadora norte-americana Janeane N. Anderson, professora do Departamento de Community and Population Health do College of Nursing da University of Tennessee Health Science Center (UTHSC), em Memphis, nos Estados Unidos.
Pesquisadora na área de câncer e saúde da população, Janeane veio para conhecer o modelo de assistência oncológica oferecido pelo hospital e conversar com profissionais da Oncologia Clínica sobre os desafios no tratamento e no acompanhamento de pacientes com câncer. A visita também faz parte de uma etapa preliminar de sua pesquisa de campo, voltada à identificação de fatores que podem influenciar a sobrevivência ao câncer entre mulheres, especialmente pacientes negras.
A aproximação com o HCP ocorreu por intermédio da cirurgiã oncológica Dra. Cecília Lima. Durante a visita, Janeane conversou com o coordenador da Oncologia Clínica, Dr. Rodrigo Arruda, que apresentou aspectos da rotina assistencial e respondeu às perguntas da pesquisadora.
Para Rodrigo, a construção de redes de colaboração entre profissionais e instituições de diferentes países contribui para ampliar o conhecimento e aperfeiçoar continuamente a assistência.
“Esse tipo de intercâmbio é muito importante porque nos permite conhecer outras realidades, compartilhar experiências e identificar o que podemos aprimorar. A oncologia está em constante evolução, e construir uma rede de pesquisadores e profissionais de saúde fortalece esse processo de aprendizado contínuo”, destacou.
Pesquisa olha para as barreiras enfrentadas por mulheres negras
A pesquisa de Janeane busca compreender como a comunicação entre pacientes e profissionais de saúde pode influenciar o tratamento e a qualidade de vida de pessoas negras que convivem com doenças crônicas. Entre os temas estudados pela pesquisadora estão o câncer de mama, o HIV/AIDS e as condições relacionadas à dor vulvovaginal e pélvica.
Um dos trabalhos que desenvolve atualmente é o ACCESS Study, que recebeu US$ 1,58 milhão em financiamento por meio de financiomento. O projeto investiga as barreiras que dificultam o acesso e a utilização dos serviços de saúde por mulheres negras com câncer de mama avançado ou que apresentam alto risco para a doença.
A pesquisa considera aspectos que vão desde as condições individuais e sociais das pacientes até fatores estruturais dos serviços de saúde. Também procura compreender, a partir da perspectiva dos próprios profissionais, como é oferecido o cuidado às pacientes negras e quais obstáculos podem interferir nesse atendimento.
“Sou pesquisadora de câncer de mama há quase 10 anos e tenho muito interesse no que chamo de pesquisa sobre a diáspora africana. Quero entender quais são as semelhanças e diferenças que criam desafios para as sobreviventes do câncer de mama, seja estudando mulheres negras nos Estados Unidos, no Caribe ou no Brasil”, explicou.
Segundo a pesquisadora, a ideia de vir ao HCP surgiu durante uma busca relacionada ao próprio trabalho.
“Quando fiz uma pesquisa no Google, literalmente este hospital apareceu. A Cecília Lima tem sido maravilhosa e me ajudou nesse processo. Então, foi por meio da minha pesquisa que descobri este hospital”, contou.
Semelhanças que atravessam fronteiras
Uma das principais impressões de Janeane na sua visita foi justamente a existência de desafios semelhantes entre mulheres negras atendidas em contextos de saúde bastante diferentes.
Nos Estados Unidos, o sistema de saúde é composto por diferentes modalidades de cobertura, incluindo programas públicos como Medicare e Medicaid, mas não existe um sistema público universal equivalente ao Sistema Único de Saúde (SUS). No Brasil, por outro lado, o HCP é uma instituição filantrópica que oferece assistência oncológica integralmente pelo SUS.
Para a pesquisadora, a diferença entre os sistemas não elimina a existência de barreiras sociais e culturais que podem afetar o acesso e a continuidade do cuidado.
“O que mais me surpreendeu foi o quanto isso é parecido com os Estados Unidos. Eu queria entender as diferenças entre os sistemas, mas o que tem me surpreendido é que, sejam instituições privadas, como nos Estados Unidos, ou um sistema público, as barreiras ao atendimento para mulheres negras às vezes ainda são as mesmas”, afirmou.
Ela aponta que essas barreiras podem estar relacionadas a fatores sociais e culturais e considera que identificar pontos de convergência pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias aplicáveis em diferentes realidades.
“Isso me entusiasma porque, como alguém que desenvolve programas, significa que programas semelhantes podem funcionar em diferentes contextos internacionais. Algo que funciona nos Estados Unidos, com alguns pequenos ajustes, pode funcionar em um contexto diferente”, explicou.
Na oportunidade, Janeane conversou com Dr. Marcelo Salgado, oncologista e principal investigador nos estudos realizados no HCP. Ela ressaltou a diversidade brasileira e a possibilidade de aproximar pesquisadores dos dois países para produzir conhecimento sobre desafios comuns.
“Estou muito animada para voltar aos Estados Unidos e dizer: o Brasil pode estar longe, mas a vida dessas mulheres não é tão diferente da vida das mulheres que vejo em Memphis, Atlanta ou Dallas”, afirmou.
Para a pesquisadora, no fim desse processo existe um objetivo comum: melhorar a vida das pacientes.











